Como vocês puderam perceber, engordei e emagreci diversas vezes ao longo dos últimos 10 anos. A pergunta que sempre me fiz durante este tempo foi: será que estou preparado para encarar ser magro de novo? Pode parecer uma pergunta estúpida a princípio. Muita gente responderia que sim sem hesitar, mas se olharmos realmente para nossas crenças, é bem provável que cheguemos a uma conclusão diferente. O efeito sanfona comprovou que menti para mim mesmo durante um bom tempo. Eu não tinha a menor dúvida que queria voltar a ser magro, mas percebi que não estava sendo sincero comigo mesmo.
O significado de ser magro estava para mim ligado intrinsicamente ao conceito de aceitação. No fundo, no fundo, tudo o que buscava era ser aceito, ser amado, admirado. O problema é que vivemos hoje em um mundo onde tudo parece estar mais complexo e para se encanarmos que para ser aceito hoje precisamos estar dentro dos padrões estabelecidos pela sociedade nos veremos correndo feito loucos atrás de tudo que aparentemente nos falta. E olha que neste mundo complexo o que não faltam são acessórios de kits pré-formatados que contribuem para a formação de personalidade, de estilo, de postura e por aí vai.
Estamos vivendo uma cultura onde nunca houve tanta diversidade. São milhares de nichos a sua escolha cada qual com seu Kit de características que poderão ser adquiridos com o intuito de garantir a aceitação por um determinado grupo. Houve época onde existiam apenas homens e mulheres. Depois disso, eles se dividiram em ricos e pobres. A personalidade com o tempo acabou virando passaporte para a aceitação. Não importa quem você seja, mas precisa ter um conjunto de opiniões sejam elas manifestadas na forma como você fala, defende idéias, seja na forma como se veste, o que você come, onde frequenta, que música ouve, o que anseia em vida proissional, estilo de parceiro... a lista fica maior a cada dia.
Você algum dia imaginou que poderia haver um cara neo-nerd-internético-cool? Pois bem, podemos citar um Mark Zuckerberg da vida (pra quem não sabe, dono do Facebook). Alguém que há anos atrás se via rejeitado na condição de nerd por ser esquisito, quadrado, inteligente demais (qualidade em excesso também é mal visto pela sociedade, pois ser bom emalgum extremo é fora do padrão mediano e encarado como uma tentativa de ser perfeito, T.O.C., egocentrismo, ganância). Mas o Mark encontrou seu nicho. Estabeleceu um conjunto de crenças (todas super fundamentadas por seu comportamento) que reempacotou o arquétipo do nerd de forma a ser aceito, melhor, ser admirado.
Os nichos sociais estão portanto cada vez mais complexos. Para ser um Mark, você não pode ser um nerd qualquer. O Neo-nerd não é sensível como o Nerd. Ele aprendeu a ser bruto, sarcástico (o que aumenta a masculinidade). Ele continua sendo inteligente e manja muito de assuntos técnicos, mas agora é um expert em tendências de comportamento. O Nerd de antigamente até percebia os padrões comportamentais e os guardava para si, se conformando com seu pequeno mundo injustiçado. Mas o neo-nerd tem corajem para falar e transformar suas percepções e opiniões em argumentos aceitos em qualquer casa do ramo. Ele aprendeu a transformar seu desleixo em se vestir em um desarrumado-chique. Seus aparatos tecnológicos agora têm um design diferenciado. O neo-nerd faz questão de mostrar que tem um gosto preciso por tudo o que é contra-tendência, anti-playboy, até tatuagem tomou coragem de fazer. O freak vira cool. Ele aprende a gostar de ganhar dinheiro, embora afirme que não ligue para isso.
A esta altura você já deve ter imaginado uma pessoa com infinitas características físicas, psicológicas, comportamentais, sociais, financeiras e blá, blá, blá. E se esta pessoa não atender um dos 25.650 itens que compõem o neo-nerd, ele não pode ser considerado um e logo volta a ser um "perdedor". Puta que pariu! Como esta simples palavra pode afetar tanto um ser humano? Tudo o que ninguém quer ser é um perdedor.
Onde eu quero chegar com isso tudo é que acreditar em qualquer possibilidade de falta te faz correr atrás de uma porrada de coisas que te definam a ponto de ser aceito. E com a gordura não é diferente! Você poderá sim ser aceito enquanto gordo. Como? Existem 2 formas. A pimeira, é você acumular 1 milhão de outras características que te tornaram tão bacana, tão descolado perante a sociedade, que legitimarão sua persona-cool, sendo classificado como um micro nicho do nicho do nicho. Uma nova categoria de gente, única, uma peça rara, difícil de encontrar, original...
A segunda forma é muito mais simples. É você simplesmente não acreditar que precisa de nada. Nada falta a você, sendo que sua simples existência já é por si só motivo de realizaçano plena. Torna-se impossível não aceitar alguém que se vê pleno, sempre feliz e que, por não estar nem aí, é original, criativo, destemido. Uma pessoa que não tem vergonha de si, nem de nada. Que não tem medo de se expor, de se doar. Alguém que é inevitavelmente bem-humorado, pois a leveza com se encara a vida dentro desta perspectiva faz com que não exista a preocupação em defender qualquer tipo de imagem, personalidade, opininião. Alguém que simplesmente é. Sem rótulos, nem a necessidade de tê-los.
Depois de tantos anos tentando a primeira alternativa, resolvi me entregar a simplicidade e aceitar definitivamente quem eu sou de fato. Você deve ter notado que estou atraente apesar de gordo. E é justamente o que estou provocando neste exato momento. Tornei-me disponível para você! Estou te convidando a visitar um lugar na mente onde não existe falta, onde não é peciso correr atrás de nada, nem defender nenhuma opinião, imagem, conceito. Muitos blogs de gordos que estão tentando emagrecer, o colocam no papel de vítima, ou seja, alguém que irá sofrer por x meses e passar todo tipo de privação para conquistar sua simpatia e finalmente "merecer" o emagrecimento como recompensa. Ele estimula o sentimento de pena no leitor que passa a sofrer junto com o personagem, reforçando assim a idéia de que precisamos nos foder para merecer ganhar uma das milhares características que o faram ser aceitos. Mas tudo é um projeto de frustração onde todo o peso perdido pelo sacrifício volta patra o corpo como culpa de se estar buscando na aparência uma forma de aceitação.
Aqui, você verá que eu já me sinto amado. Que já me sinto completo. Você irá perceber que com 104 ou com 84 Kg serei a mesma pessoa, provocarei em você a mesma empatia. Esta é a única razão da existência deste projeto. Está curioso? Embarque comigo nesta jornada e te dou a garantia de mostrar a você a leveza de simplesmente ser. Agora sim estou preparado para ser magro. E você?
Beijo do gordo (será?)